Edição 229 | Janeiro/Fevereiro 2010 – Revista Nova Escola
Apreciar a textura de um sorvete, relaxar numa massagem, desfrutar o beijo da pessoa amada: tudo o que se relaciona ao prazer com o corpo está ligado à sexualidade. Embora pelo senso comum ela se confunda com o erotismo, a genitalidade e as relações sexuais, o fato é que esse campo do desenvolvimento humano pode ser entendido num sentido mais amplo e deve incluir a conscientização sobre o próprio corpo e a forma de se relacionar amorosamente.
Ainda que esse processo se estenda pelo resto da vida, ele se inicia na infância, desde o nascimento. "As crianças sentem prazer em explorar o corpo, em serem tocadas, acariciadas. Elas experimentam a si próprias e ao entorno, vivenciam limites e possibilidades", diz Cláudia Ribeiro, professora da Universidade Federal de Lavras (Ufla), em Minas Gerais.
De modo geral, é possível falar em três "frentes de descobrimento", que ocorrem paralelamente: a da dinâmica das relações afetivas, a do prazer com o corpo e a da identificação com o gênero. Tudo se inicia com a primeira percepção de prazer: o ato de mamar, uma ação que dá alívio ao desconforto da fome e que intensifica o vínculo afetivo, baseado na sensação de cuidado e acolhimento. "A ligação entre mãe e bebê é um embrião relacional que, mais adiante, será desafiado com a percepção de que a figura materna desvia sua atenção para outras pessoas, como o pai ou um irmão", explica Ada Morgenstern, psicanalista e professora do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo.
Ao constatar que não é o centro das atenções, a criança sente certo abalo em seu "reinado", mas também percebe que a sensação boa de se relacionar pode ser estendida para além da figura da mãe. Inicialmente, ela se volta para outros membros do contexto familiar e, em seguida, depois do primeiro ano de vida, para fora dele. "Essas relações dão uma referência à criança sobre sua própria identidade. Interagindo com amigos, ela percebe a si mesma", diz Maria Helena Vilela, educadora sexual e diretora do Instituto Kaplan, em São Paulo.Para compreender as relações entre casais, os pequenos criam representações com faz de conta e imitação.
Experiências e perguntas nas investigações sobre o prazer:
A descoberta de que o corpo é uma importante fonte de prazer costuma vir acompanhada de perguntas sobre a sexualidade. É comum, por exemplo, uma criança pequena perguntar a uma visita se ela tem "pinto" ou "perereca" - causando certo constrangimento aos adultos. A questão explicita que ela começa a identificar as diferenças entre o corpo do homem e o da mulher e toma consciência das características do próprio físico. Nesse contexto, além da investigação visual, experimenta as sensações causadas pelo toque em diferentes partes do corpo (e no de outras crianças), sejam elas do mesmo sexo ou do sexo oposto. "Também fazem parte dessa vivência beijos e abraços entremeados por risos e cócegas", completa Cláudia.
Um dos pioneiros a estudar a exploração do prazer corporal foi o neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939), criador da psicanálise, que chocou a sociedade de sua época ao falar da sexualidade infantil - rompendo com a imagem da criança inocente, assexuada. Ele mapeou o desenvolvimento nesse campo em diferentes fases, cada uma valorizando o prazer em uma região do corpo. A primeira delas é a fase oral, que se estende até os 2 anos e em que os pequenos concentram na boca a maior parte das sensações de prazer - mamar no seio ou na mamadeira, chupar chupeta etc. Em seguida, passa-se à fase anal (em torno dos 3 e 4 anos), quando a criança ganha controle sobre os esfíncteres e passa pelo processo de largar as fraldas. Nesse momento, sente-se bem em eliminar ou reter urina e fezes, fazendo do ânus uma região de prazer.
Depois os pequenos descobrem o prazer genital e investem nessa exploração do próprio órgão sexual. Esse período ocorre entre os 3 e os 5 anos e, depois dele, instaura-se um período de latência, em que as questões da sexualidade ficam secundárias nas inquietações infantis (até a puberdade). Embora não tenha sido superada, essa divisão em etapas é hoje relativizada pelos especialistas. "A separação por fases tem a intenção de facilitar a compreensão sobre o amadurecimento da sexualidade e não pode ser entendida como algo estanque, que ocorre linearmente", explica Ada.
As dúvidas sobre a concepção são frequentes e devem ser respondidas com precisão.
É também durante a Educação Infantil que os pequenos começam a se colocar questões sobre a origem dos bebês. Os caminhos para resolver esse "mistério" costumam ser perguntar a um adulto ou elaborar teorias próprias com as informações que coletam das mais variadas fontes - conversas, filmes e livros, por exemplo.
"Nessa hora, o importante é responder exatamente o que a criança está perguntando, sem antecipar dúvidas", diz Marcos Ribeiro, sexólogo e coordenador geral da ONG Centro de Educação Sexual, no Rio de Janeiro. Se uma criança indaga como os bebês nascem, dizer que eles saem do hospital, embora não seja errado, não resolve a dúvida, pois poderia indicar que eles são comprados ou pegos no local. Uma possibilidade é dizer que eles vêm da barriga da mãe, sem dizer como ele entra ou sai dela (a menos que o pequeno pergunte). "Assim, é possível garantir que eles tenham acesso à informação à medida que as questões façam sentido para eles ou os inquietem", diz Ribeiro.
Além de explicações sobre anatomia e concepção, os pequenos vão aos poucos construindo ideias sobre cada gênero. Por volta dos 2 anos, a criança percebe se é do sexo feminino ou masculino e, no contato com os adultos ao seu redor e pela mídia, aprende o que é ser menino ou menina em sua sociedade - e, claro, tem contato com os rótulos associados a eles. Os pequenos logo percebem que se espera que o homem seja forte e que a mulher seja frágil e delicada.
"É preciso ter atenção à rigidez dessa diferenciação e à criação de estereótipos que não contemplem a diversidade entre as pessoas", alerta Ribeiro. Nesse aspecto, a escola tem um papel importante. A maneira como a instituição lida com as diferenças físicas e a igualdade de oportunidades são maneiras de ensinar o respeito à diversidade e de não reafirmar clichês questionáveis - como o fato de a menina ser passiva, e o menino, destemido ou mesmo autoritário.
Da mesma forma, a equipe docente tem responsabilidade em explicitar as regras da cultura em que os pequenos estão inseridos. É preciso ter atenção, sobretudo, à distinção do que cabe no espaço público e no privado. A masturbação, por exemplo, requer um espaço privado para ser realizada, assim como urinar e defecar. "O professor deve intervir ao ver um menino manipulando a genitália em local público, mas o foco não deve ser a ação em si. A questão é o local apropriado", diz Maria Helena. "O adulto não deve repreender a criança apenas porque ele mesmo está incomodado. Se ela estiver se tocando em local privado, como a cabine de um banheiro, não é adequado pedir para parar."Construída no início da vida, a identificação com o gênero se vincula à cultura em que cada criança se insere.
O desafio para o professor é enorme: ao mesmo tempo em que deve preservar a intimidade das crianças e não culpabilizá-las por manifestações de sexualidade, ele é responsável por um processo educativo que aborde valores, diferenças individuais e grupais, de costumes e de crenças. Isso é fundamental tanto na infância como na adolescência, quando a questão ressurge a todo vapor. O mesmo tema voltará a ser abordado na série Desenvolvimento Infantil e Juvenil - que, a partir do mês que vem, direciona o olhar para o comportamento dos jovens.
A TV é, como todos sabem, o meio mais eficaz de divulgar uma mensagem ao maior número possível de pessoas. Mas, quais pessoas? Qual mensagem? A resposta: qualquer mensagem para qualquer pessoa que esteja em frente ao aparelho de TV.
Como resultado da diversidade de interesses, temos um número infindável de mensagens sendo captadas e assimiladas por quem não deveria, em princípio, recebê-las. Podemos citar como exemplo as constantes cenas de violência a que somos submetidos, cada vez com maior intensidade, dentro de nossos lares, na suposta intenção de nos manter informados sobre os perigos do mundo atual. Naturalmente, uma mente esclarecida sabe distinguir o real da ficção, o exagero do fato acontecido, procura confrontar diferentes fontes de informação antes de emitir juízo a respeito. Mas, e as crianças? Cada vez mais, temos crianças como principais espectadoras desse espetáculo, por vezes grotesco, que nos vêm através desse meio de comunicação.
Outro exemplo significativo são as cenas eróticas que, igualmente, aparecem cada vez com maior freqüência. São um estímulo à erotização precoce das crianças. Hoje, as crianças não querem mais usar roupas de criança. Querem roupas iguais às dos adultos. Querem parecer atraentes, embora ainda não tenham consciência do que seja um romance, da carga de emoções envolvida, e, além disso, ainda não querem realmente um namoro. Querem apenas imitar os adultos em seus modos, suas atitudes, sem saber exatamente o que isso significa.
Esses foram apenas dois exemplos relativos ao conteúdo. Mas, independente do conteúdo, há outro problema inerente a esse meio de comunicação. Ele não convida à reflexão. As imagens se sucedem de forma muitas vezes desconexa, apresentando vários assuntos em um curto espaço de tempo. A criança, muitas vezes, não compreende o que está vendo. Apenas assiste passivamente, assimilando imagens sem ter critério para saber quando deve parar de assistir. Em conseqüência, essas imagens vão atormentar a mente da criança, que vai dormir com lembrança de imagens confusas e tenebrosas, que não sabe o que significam, e nem sabe exprimir de forma coerente para que alguém possa esclarecê-la.
Cabe aos pais ou responsáveis tomar atitudes positivas e coerentes no sentido de evitar o uso indiscriminado da televisão por seus filhos. Não é uma tarefa fácil. Se não vêem na própria casa, vêem na casa dos amigos, dos vizinhos, dos parentes. Com esse argumento, muitos pais simplesmente desistem de exercer seu controle e acabam por não se importar que seus filhos fiquem acordados até tarde e até colocam televisão nos quartos. Dizem “não adianta mesmo”, e acabam abandonando seu papel de educadores, deixando que os “profissionais” da comunicação o façam. Exercer controle não é fácil, mas virar as costas ao problema acaba por aumentá-lo, acumulando problemas educacionais para o futuro, quando se tornam ainda mais graves.
Em termos de cultura, todos nós recebemos como herança educacional elementos de autoritarismo, opressão e repressão. Em algumas famílias não se podia conversar, falar, olhar, dizer não, perguntar, referir-se a pai e mãe, o que seria considerado falta de respeito. Na tentativa de não repassar este tipo de educação para outras gerações, busca-se criar uma educação mais libertadora. Mas o que seria essa educação mais libertadora?
Uma educação onde o aprender a conversar seja buscado, onde o ouvir o outro marque sua presença, onde o sentimento seja legitimado e lidado, onde haja liberdade de ser e o respeito, responsabilidade, autoridade sejam bem definidos e ocupados de acordo com os limites e contingências de cada papel. Há algum tempo atrás, a questão dos limites ficou associada à: punição, castigo e, neste sentido deveria ser evitado ou até mesmo banido. A psicologia ajudou a repensar esta questão, ressaltando a importância de que os limites sejam dados, que pai e mãe ocupem seu papel de orientadores, de comando na educação dos filhos. Existe uma certa informação popular que paira e envaidece alguns, de serem “mais” do que pai e mãe dos filhos: são amigos destes. Claro que o respeito, consideração, solidariedade presentes na amizade, são importantes na relação pais e filhos. Mas essa relação deve ser, principalmente, caracterizada como: pai, mãe e filho. Não é uma relação de troca, no sentido de igualdade de papéis, como é a amizade. Acredito até que quando adultos essa relação pode vir a ser de amizade; se na infância e adolescência, o filho recebeu aquilo que precisa receber dos pais: sentir-se: amado, cuidado, considerado, valorizado, orientado e muitas vezes comandado.
Quando uma criança sabe onde está pisando e até onde pode ir, sente-se mais segura. Aprende a lidar com seus impulsos e emoções. E pode decidir aquilo que tem maturidade para avaliar. Sentindo-se cuidado, tende a ter maior estrutura em termos de segurança afetiva. Os limites também dão noção do outro, de que ele existe e também deve ser considerado. Atravessamos um período marcado pelo individualismo, hedonismo, culto ao prazer desconectado da responsabilidade; do imediatismo. “Eu estou com vontade eu faço, isto me dá prazer danem-se os outros”.
Os limites marcam a realidade de cada relação e estrutura social, ajudando a criança a compreender e introjetar valores.
São atitudes que revelam dificuldades em se dar limite:
1- insistência – “Filho vai tomar banho, filho vai tomar banho, filho vai tomar banho...”.
2- perder a paciência e agredir - Dando assim um modelo de autoritarismo, de desigualdade de condições, de covardia, de violência;
3- nada fazer, ignorar – continuar lendo seu jornal enquanto a criança sobe em cima do sofá, da mesa... Fornecendo assim um modelo de abandono.
4- explicações exageradas – “Mãe, porque eu preciso escovar os dentes? Você precisa escová-los porque senão virão umas bactérias comerão o resíduo alimentar, formarão uma placa chamada placa bacteriana, fazendo um buraco que é a cárie, você sentirá dor e teremos que ir a um dentista que irá obturar o dente”.As explicações são importantes, mas devem ser dadas com simplicidade, objetividade na medida da curiosidade do outro.
5- zanga prolongada – A pessoa que é autoridade zanga com a criança por fazer algo que não deveria. Periodicamente, volta ao assunto mesmo que ele não esteja no contexto, fazendo assim uso da situação para que a criança se sinta culpada pelo feito, vitimando a autoridade.
6- nomear entidades utilizando-se de situações que provoquem medo para “frear” a criança ou passar a responsabilidade para o outro – “O homem do saco vai te pegar”; “Quando seu pai chegar você vai ver”; “Resolve isto com sua mãe e me deixa ver televisão”, etc; O conflito de cada relação deve ser resolvido no âmbito desta.
7- chantagear – “Se você tomar injeção eu te dou um sorvete”. Fortalecendo a insegurança da criança, reconhecendo que aquilo que ela se submeterá é tão insuportável, que ela não tem estrutura para lidar e precisa ser aliviada. Quem ocupa o papel de comando não consegue segurar a “rédea” da situação. Desta forma, a criança não tem a dimensão real da dor, nem se fortalece conhecendo suas possibilidades e potencialidades para lidar com a situação e, sente que a autoridade não ocupa seu espaço, portanto o “trono” está vazio e pode ser ocupado. Abre caminho também para que a criança utilize a chantagem para obter aquilo que deseja. A criança pode ser confortada, sentir que o outro está junto com ela na dor, não negando-a, nem subestimando ou super valorizando. Assim sendo, sente-se cuidada.
8- ameaçar o filho com a perda do amor ou abandono – “Vou embora e vou deixar você aí, vai ficar sozinho”.Nada mais cruel e danoso para a criança que faz de tudo para obter o amor dos pais e sentir-se valorizado.
9- comparações ou comentários negativos na presença de outros – “O filho do fulano não está chorando...” Reforça a menosvalia e insegurança da criança, uma vez que além da pessoa não ser clara no comentário (“Eu gostaria que você fosse ou estivesse quieta como o filho do fulano”), faz com que, a criança sinta-se não aceita, desconsiderada na sua percepção e muitas vezes sem condições de defender-se. O ser claro no comentário faz com que a responsabilidade da situação volte para a relação de conflito.
A criança pode lidar com os limites de diversas formas. Ela utilizará as armas que terá em cada relação: através de choro, raiva, pirraças, dengo; comportamentos infantilizados; comparações ou tentará negociar. Muitas vezes nesta situação fazendo com que os pais ou outras figuras de autoridade, reconsiderem, reavaliem uma determinada regra. À medida que irá crescendo é importante que também vá conquistando mais este espaço, de poder decidir sobre sua vida. Os pais também vão aprendendo a fazer esta passagem de: fazer pela criança, serem supervisores, orientadores e amigos. Educar é um processo difícil, de aprendizagem, de avaliação constante, de reconstrução de valores, de acertos e erros, a ser vivido e construído junto com o outro.
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Julho de 2009
Embora esta postura seja reconhecida claramente como errada pela maioria dos pais, é bastante comum encontrar famílias que assumem essa atitude por não saber como lidar com a questão.
Fechar os olhos para o problema e esperar que ele se resolva por si só é o comportamento daqueles que não conseguem impor as regras e se fazer obedecer pelos filhos.
Pais esclarecidos, de boa condição socioeconômica, ainda se angustiam quando o filho acorda de madrugada e eles, pais, precisam dormir porque no dia seguinte têm de trabalhar. E a maneira mais rápida de fazer uma criança pegar no sono é, de fato, oferecer-lhe segurança e aconchego, na cama dos pais. No dia seguinte, pai e mãe acordam tortos, com dores no corpo, pois o filhinho dorme em “L”. Mas foi melhor do que passar a noite em trânsito entre os quartos, pensam eles.
Estabelece-se um hábito que, sob o aspecto afetivo, pode parecer tranqüilizador. Com certeza, noites sem choro serão mais freqüentes, mas um grande problema surgirá no futuro. A criança assumirá um papel que não é seu. Se for um menino, dormir com os pais é assumir com a mãe o papel masculino. Se for uma menina, acontece o oposto. Assim a criança aprende que o pai (ou a mãe) é seu parceiro(a); ou melhor ele/ela é o parceiro da mãe/pai. E, assim, passa a desprezar o progenitor do seu sexo e competir com ele. Este novo vínculoestabelecido é forte e muito mais difícil de romper sem traumas do que aquelas noites de choro na primeira infância.
Mas como lidar com o choro de madrugada? Antes de tomar qualquer atitude, é importante verificar, pesquisar porque a criança acorda. Algumas percepções podem apontar um problema de fácil solução.
1ª hipótese: Depois de certa idade, já não se admite mais que a criança acorde no meio da noite por fome. Os pais devem certificar-se com o pediatra, como está o desenvolvimento físico de seu filhinho e até quando ele precisa tomar as mamadeiras da noite. Determinado o momento, fica claro que, se persiste o choro de madrugada, não deve ser fome.
Existe outro problema: muitas vezes, tirar a mamada do meio da noite significa permitir que a criança cresça. Ou, melhor dizendo, enquanto a mãe precisa acordar de madrugada para alimentar seu filho, ela acredita que tem um bebê e dessa forma se sente útil. É muito difícil para muitas mães e pais deixar o filho crescer, pois isso significa soltá-lo para o mundo. A segurança de ter educado corretamente é fator determinante nessa hora. Mas calma, isso é lá no futuro.
O mesmo acontece em casas que contratam uma babá que dorme com a criança. A babá perde a sua função se a criança dormir a noite inteira. Portanto, não se esforçam para romper esse costume. Existem famílias cujas babás ficam permanentemente nas casas, perpetuando maus costumes como a mamadeira do meio da noite, mamadeiras durante o dia, adormecer somente acompanhado, não se vestir sozinho, não escolher o que come ou veste... e por aí vai.
Outras vezes, acordar de madrugada para cuidar do filho proporciona alívio às culpas dos pais. Ou seja, pais muito ausentes da rotina diária dos filhos sentem-se recompensados quando podem atuar, mesmo reconhecendo que esta não é a melhor maneira, eles não sentem vontade de romper com o mau costume.
Mas voltemos às noites de choro.Descartada a hipótese da fome, a próxima opção seria algum outro tipo de desconforto. Quem sabe frio, ou calor, ou insetos, ou dor...Nesses casos, a solução é de ordem prática e facilmente encontrada. Costumam ser casos isolados, que, se solucionados adequadamente, não geram maus hábitos.Importante é não superdimensionar o problema, na frente da criança. A questão deve ser resolvida de maneira prática, objetiva, rápida e carinhosa. Quanto mais rápido a criança voltar a dormir menor a chance de repetir a dose nos dias posteriores.
Se a criança percebe que, ao acordar de madrugada, recebe mimos e afagos garantidamente institui-se uma nova rotina.
Depois de descartar essas opções, pode-se ainda verificar se a criança tem pesadelos. Pesadelos, muitas vezes, são manifestações de intranqüilidade no dia-a-dia das crianças. É importante verificar como foi o dia anterior: O que a criança viveu diferente da rotina? Que programa a criança assiste na televisão?A família está em clima de harmonia?Houve alguma briga entre os membros da família? A criança viu a mãe ou o pai muito tristes ou doentes? A mãe começou a trabalhar e precisou deixar a criança com a avó ou uma babá?
O filtro familiar deve atuar para manter a harmonia e calma na vida do pequeno. Assim sendo, os pais devem preocupar-se em oferecer à criança somente experiências que traduzem sentimentos verdadeiros e bons, evitando toda experiência de agressividade. É natural que na família exista discussão, afinal temos opiniões diferentes uns dos outros. A criança percebe. Os pais devem privá-la de assistir a discussões, principalmente quando o assunto é ela ou sua educação. Brigas verbais ou físicas jamais devem acontecer em frente às crianças.
Cabe aos pais resolver os problemas diagnosticados nesta pesquisa noturna. E, depois de resolver e acalmar a criança, fazer com que deite em sua própria cama.
Quando se certificam de que não é fome, desconforto ou pesadelo, então é preciso avaliar outras posturas. Algumas vezes a criança vem silenciosamente e, sem que os adultos despertem, deita-se com eles. Geralmente essa criança já teve a permissão em noites anteriores. Agora, ela já se sente aceita e pratica o ato naturalmente. Ficou estabelecido um mau hábito. A partir de então, é preciso muita determinação, paciência e luz. Se a criança for para a cama dos pais, estes não devem permitir que ali permaneça. É melhor que um dos pais levante e deite num colchão ao lado do filho, até que ele adormeça.
Verbalizar o que está acontecendo e as decisões tomadas ajuda a criança a compreender e sentir segurança, ou seja: “Você tem acordado muito durante as noites. Sua mãe e eu não queremos que venha dormir em nossa cama. Nós vamos ajudar você no seu quarto. Vou ficar aqui até que você adormeça”.
Manter uma rotina de horários e estratégias constantes e coerentes é saudável. Estar presente na hora de levar a criança para a cama e fazer isso com amor é uma maneira de se prevenir contra tal comportamento. Conversar um pouco, lembrar o dia que passou, contar uma história e fazer uma oração são opções carinhosas para o momento.
Não permita que seu filho crie o hábito de adormecer em frente à TV.
Na hora de dormir, o cérebro bem como o corpo precisam relaxar. Embora para muitos adultos a TV sirva de sonífero, ela oferece uma fuga, não permitindo que a pessoa entre em contato com seus próprios pensamentos e sentimentos. Rever o dia que passou antes de adormecer, tentar lembrar a seqüência de acontecimentos é um exercício que produz boas reflexões e ajuda a administrar os próprios problemas.
A passagem do estado de consciência para o de inconsciência, do acordado para o dormindo, produz medo em certas fases da infância. Portanto, esse é um momento delicado, no qual a presença dos pais é fundamental.
Não somente presença física acolhedora, mas principalmente presença que impõe limites e oferece segurança.
“Pode dormir, meu filho. Eu cuido do seu sono” – deve ser a tradução da postura dos adultos.
Uma boa noite de sono alimenta a alma, traz saúde e disposição.
Não é incomum que dentro da escola de Educação Infantil surjam conflitos entre as crianças, pois nesta idade o ser humano é egocêntrico.Importante ressaltar o significado desta palavra: centrado em seu próprio ego, pensa que é o centro de todos os interesses.O Ser Humano chega ao planeta bastante inábil, sem capacidade de andar, de se comunicar, de administrar sua própria vida.Na medida em que vamos crescendo, primeiramente vamos percebendo o nosso corpo, em seguida enxergamos o entorno e somente então vemos o outro à nossa frente com todas as dificuldades de relacionamento que isto implica.
Conhecendo as características do ser humano, em especial aquelas da faixa etária na qual atuamos, psicólogos, pedagogos e educadores acreditam que o desenvolvimento infantil sustenta-se em seu equilíbrio emocional.Para tanto, ele precisa aprender a conviver. Aprender a se expressar, a falar de seus sentimentos e desejos sem usar o contato físico, ou melhor, a agressão.Muitos adolescentes e até adultos demonstram que não aprenderam isto na infância, não é raro encontrarmos pessoas agressivas em nosso dia a dia.
Aqui na Kid´s Home, não por acaso, um dos principais focos do trabalho de nossa equipe é Resolução de Conflitos. As crianças chegam aqui na escola na idade do “é meu”. Isto vale não somente para o brinquedo, mas também para os amigos e as professoras. Cada criança também traz consigo comportamentos adquiridos em seu contexto familiar.Em sua peculiar dificuldade de compreender que somos “mais um” a criança deseja que as pessoas de sua relação não dirijam a atenção a outrem além dela.Os ciúmes do amigo, ou da professora detona comportamentos inesperados, tanto no calar timidamente como no explodir em mordidas, tapas, chutes e cusparadas.Nem sempre é possível constatar o fator desencadeante das reações infantis.Porém, sempre é necessário agir e “educar” verdadeiramente.Através do vinculo afetivo estabelecido com o adulto mediador, as crianças falam e chegam a acordos que satisfaçam tanto o agredido como o agressor.Não há varinha mágica.São muitas e muitas vezes que o educador, incansável, deve intervir. Precisamos compreender como educador todo o adulto que oferece modelo e intervenção para a criança. E, na medida em que as crianças crescem, compreendem que embora não sejam o centro do universo, são únicas e descobrem quão gostoso é conviver.
Desejamos que nossos pequenos aprendam a se relacionar de maneira adequada.Simbolicamente costumo dizer: Não queremos lobos e nem cordeirinhos!
Mas como a família pode ajudar?Quando seu filho age de maneira agressiva a família precisa ser firme, colocar limites, deixar claras as regras.E, não voltar atrás.O que é sim hoje é sempre sim, o que é não hoje é sempre não.Desta maneira, a criança sente-se segura e vai descobrindo quem manda em casa.Saibam que quando a criança percebe que falta autoridade aos seus pais, ela sofre, pois acredita que é ela quem manda e sabe que não pode arcar com as conseqüências de seus atos.Então ela adota comportamentos inadequados, torna-se ou um tirano ou um inseguro, ou quer mandar em todos que a cercam, pois está acostumada a mandar em seus pais, ou não realiza nada sozinha, pois está acostumada que fazem tudo por ela. Quando em outros ambientes e tem seu comportamento questionado, a criança reage, sem compreender porque ali as regras são diferentes.
A comunicação entre escola e família é um dos fatores mais significativos para o sucesso de diversos processos de desenvolvimento infantil.No caso da agressividade vale a mesma regra.Tanto a escola quanto a família precisam oferecer o mesmo modelo para que a criança perceba que comungam em seu benefício, para que se reforce a aprendizagem.Quando uma criança agride ou é agredida é importante conversar. É necessário muita calma, pois é difícil para todo pai e mãe entender porque seu filho se envolveu numa situação de agressividade.Não podemos potencializar, precisamos ouvi-lo e fazer perguntas para compreender a situação de maneira ampla.Depois é preciso procurar a escola e ouvir a versão completa.Então juntos, pais e professores, é preciso estabelecer o melhor caminho para cada caso. A família e a escola precisam ajudar o pequeno que ainda não compreendeu como funcionam as regras de convívio social.
Não podemos julgar nem rotular uma criança como agressora, pois estes são comportamentos comuns na infância embora não aceitáveis.E, hoje é outra criança que bate ou morde, amanhã poderá ser o seu filho.
Somente assim contribuiremos para a formação de seres humanos mais equilibrados e tranqüilos, que saibam resolver seus problemas sem perder a cabeça e sem expor sua integridade física.
(Ler e escrever com e para as crianças, dentro e fora da escola, o melhor "método".)
Atualmente, a palavra "alfabetização'" está sendo cada vez menos utilizada pelos pedagogos, principalmente devido às suas ligações com métodos muito mecânicos de ensino. Tem-se preferido a enorme, porém correta expressão "ensino-aprendizagem da linguagem escrita" e, mais recentemente, passou-se a falar em processos de "letramento", que ocorrem fora das escolas e também, de forma mais sistemática, dentro delas, quando as crianças vivem em culturas em que a presença da linguagem escrita é comum no cotidiano.
Um belo exemplo permite ilustrar o espírito que embasa as novas concepções de alfabetização. Trata-se de uma história contada pelo escritor búlgaro Elias Canetti, Prêmio Nobel de Literatura em 1981. Ele fala sobre sua infância e conta como todos os dias ficava fascinado ao ver seu pai ler o jornal: "Era um grande momento quando ele o desdobrava lentamente. Assim que ele se punha a lê-lo, já não tinha olhos para mim, e eu sabia que, de forma alguma, não me responderia. (...) Eu tentava descobrir o que o prendia tanto ao jornal; no começo pensava que fosse o cheiro e, quando ficava só e ninguém me via, trepava na cadeira e avidamente cheirava o periódico. Mas depois notei como ele movia a cabeça ao longo da folha, e o imitei sem ter diante dos olhos o jornal que ele segurava sobre a mesa com ambas as mãos, enquanto eu brincava no chão, às suas costas. Certa vez, um visitante o chamou; ele se voltou e me flagrou em meus imaginários movimentos de leitura. Então se dirigiu a mim (...) e me explicou que o que importava eram as letras, muitas pequenas letras nas quais ele bateu com o dedo. Em breve eu também saberia ler, disse ele, e despertou em mim um insaciável desejo pelas letras." (Elias Canetti. A língua absolvida. São Paulo : Companhia das Letras, 1989. p. 37.)
O exemplo ilustra uma idéia simples: a aprendizagem da leitura e da escrita será melhor em lugares em que as pessoas lêem e escrevem bastante, gostem de conhecer e criar histórias, escrever cartas, inventar poesias, etc. Assim, a partir de discussões sobre a criação de "ambientes alfabetizadores", surgiu um consenso sobre a importância, na alfabetização, de oferecer aos alunos rotinas repletas de atividades de produção e leitura de textos. As experiências mostram a importância de atividades que exploram a literatura infantil, a redação e troca de mensagens, a assinatura de desenhos e trabalhos feitos em equipe, a criação e redação de poesias, etc. Nesse contexto, até mesmo as atividades mais mecânicas - como cópias de palavras e letras, aprendizagem de letras e sílabas, memorização do alfabeto, correção ortográfica e gramatical - tornam-se mais significativas e encontram seu espaço.
O erro estava em querer iniciar a aprendizagem pelos processos de repetição e deciframento de letras, sem inseri-los em um contexto em que ler e escrever tivessem significado para os alunos.
O importante agora é aprender a ler com palavras, frases e textos que sejam significativos para cada grupo de crianças e, por isso, vemos cada vez menos métodos baseados apenas em cartilhas e listas pré-fabricadas de frases. De forma bastante sensata, busca-se desenvolver não apenas a competência para ler e escrever, mas também o prazer em fazê-lo.
Independentemente dos métodos usados por uma escola, a atuação dos pais, como ficou claro em nosso exemplo, é decisiva para as crianças. Como a leitura e a escrita são fundamentais para todas as outras aprendizagens escolares, pais que apreciam ler e escrever e incentivam seus filhos a gostar também estarão dando a eles uma grande ajuda para que se saiam bem na escola.
Ir para a escola de ensino infantil faz com que as crianças tenham que ficar longe dos pais e da família e isso pode ser um processo leve ou pesado para a criança e para os pais, não só quando as crianças entram na escola pela primeira vez, mas também a cada passagem de ano, de uma turma para outra.
O que é certo neste momento de adaptação, é que as crianças estavam acostumadas a ficar em casa perto de pessoas que amam e que são muito importantes na vida delas (no caso das crianças que estão entrando na escola pela primeira vez), ou estavam curtindo férias junto dos pais com lazeres e atividades prazerosas (no caso das crianças que já freqüentam a escola) e de repente, têm que aceitar uma realidade bem diferente: ficar um determinado período por dia num outro ambiente, com outras pessoas (profissionais da escola e colegas), com outras normas, regras, rotinas e disciplinas. Em casa, podiam fazer certas coisas gostosas, como assistir filminhos à hora que quisessem, ficar de pijama, comer algumas guloseimas, etc. e neste momento não poderão mais realizar suas vontades na escola e muito menos ficar pertinho dos familiares queridos.
Todas as questões mencionadas acima mexem com as crianças; algumas aceitam mais rapidamente e outras não. O importante é lembrarmos que cada criança lida com esta situação de uma determinada maneira, de acordo com sua história familiar e com seu jeito de ser. Alguns choram nos primeiros dias e depois ficam bem; outros ficam “doentinhos” (fazem febre, diarréia, provocam vômitos, etc.); outros ainda, ficam mais “agressivos” (começam a morder, bater, empurrar, chutar, etc.). Nas escolas de ensino infantil constata-se as mais diversas reações das crianças: mentir, falar mal da professora, inventar coisas negativas sobre o lanche, levar para casa coisas de colegas ou da escola, gritar sem parar, etc. As crianças utilizam essas táticas para mostrar que não estão conseguindo aceitar a frustração: de ficar longe da família, de ter que aprender a conviver com pessoas diferentes e estranhas para ela, de entender que precisará respeitar normas e rotinas, de aprender a dividir a atenção da professora com o colega, ou de dividir objetos e materiais com os colegas, entre outras questões.
Para facilitar este processo para a criança, o primeiro ponto fundamental é os pais terem consciência de que as reações que as crianças apresentam (as mais diversas), têm a ver com dificuldades da própria criança em aceitar frustrações, em aceitar perder coisas. O segundo ponto importante é os pais perceberem que cada criança tem um ritmo diferente para entender a tal frustração – que pode variar de um dia a semanas ou até meses. A postura que os pais vão ter frente a adaptação do filho faz toda a diferença. Pais inseguros, cheios de dúvidas, vão passar de alguma maneira suas ansiedades para a criança. Alguns pais se assustam com as reações do filho e não entendem que elas fazem parte do processo natural de adaptação e acabam deixando o filho mais nervoso. Já vimos pais tirando crianças da escola por não agüentarem certos comportamentos. Infelizmente, pais que optam por desistir da permanência do filho na escola provocam uma conseqüência que pode ser negativa: o filho saberá que sempre que tiver determinada reação, os pais vão ceder e agradá-lo e também a criança não estará aprendendo a enfrentar perdas e lidar com frustrações. Sendo assim, o trabalho mais árduo na adaptação é da família / dos pais. Se houver qualquer sinal de ansiedade, acabam questionando demais sobre a escola, o que a professora fez, o relacionamento com os coleguinhas, ou seja, acabam cobrando exageradamente a atitude do seu filho na escola e também da escola com seu filho, interferindo muitas vezes de uma maneira negativa na rotina da escola. Criam situações de dependência com o filho: ficam espiando na janela da sala de aula; levam a criança no colo até a sala; carregam sua mochila; ficam na escola por várias semanas. O que os pais não sabem, é que quando viram as costas, seus filhos ficam mais calmos e se divertem na escola. Para algumas crianças isso demora um pouquinho mais para acontecer devido a ansiedade dos pais, mas sempre acabam relaxando em determinado ponto do processo e ficam muito bem. O que os pais mais comentam nesta fase de adaptação, é que não gostam e não admitem que seus filhos sejam mordidos, empurrados, ou sejam “agredidos” por outras crianças. As orientações são sempre no sentido de entenderem um pouco mais, que essas outras crianças podem estar passando por dificuldades em aceitar as frustrações que a entrada na escola propicia ou ainda estarem passando por situações familiares difíceis e mudanças que deixaram-nas mais “agressivas”. Os paisnão têm a informação de que atitudes “agressivas” fazem parte da infância; a agressividade é a maneira mais natural que utilizam para se defender, afirmar opiniões e conquistar espaços.
Por isso, os profissionais da Educação Infantil são orientados para ocuparem as crianças durante as adaptações com técnicas e atividades prazerosas, criativas, diferentes e atraentes para que a criança se esqueça um pouco de casa e passe a prestar atenção na escola. Também são orientados a fazer todas essas brincadeiras para que comportamentos “agressivos” se amenizem, pois a criança ocupada foca mais tempo de sua atenção no que está fazendo (pintura, desenho, ouvindo histórias, brincando, etc.). O que não quer dizer que tais comportamentos serão eliminados – isso só acontecerá quando a criança aprender que existem outras maneiras de delimitar espaços, afirmar opiniões e quando conseguir de fato aceitar perdas e lidar com frustração / quando isto estiver resolvido dentro dela. E por mais que os profissionais da escola sejam totalmente qualificados, sempre surgem mordidas e machucados, pois, às vezes, quando o profissional vira a cabeça para o lado, pode acontecer algum episódio.
Com tudo isso, é certo que a escola de ensino infantil constrói adultos melhores: se desde pequena a criança aprender a lidar com o sofrimento das perdas, na sua vida adulta também vai saber lidar com frustrações do cotidiano, como, por exemplo, perder empregos, perder bens materiais, terminar relacionamentos, etc. Simplesmente não vai se desesperar, fazer greves de fome, tentar acabar com sua vida, criar depressões. O adulto vai conseguir ter calma e tranqüilidade para aceitar melhor suas perdas e buscar novas soluções.
De quando em quando, dentro da dinâmica escolar, o assunto vem à tona: crianças são mordidas e pais ficam preocupados. Na tentativa de ajudar a entender essas manifestações, produzimos este texto sobre características da faixa etária, o contexto onde acontecem as mordidas e qual é a postura da Escola em relação a elas.
Entre 1 e 2 anos, a criança ainda tem na sua boca uma das grandes fontes de descobertas. Do brinquedo à pedra, passando pela chupeta, tudo ela leva à boca para experimentar e para dela retirar sensações diversas. Chupar, morder, sugar, degustar, emitir sons, inspirar e expirar são ações que dão prazer e também por onde pode relacionar-se com o mundo externo.
Os dentes que estão despontando na gengiva coçam e afligem a criança nesta fase. Outro fato a se considerar é que as crianças até 3 anos frustram-se com facilidade e têm pouco controle sobre seus impulsos.
No entanto, considerar somente estas características é pouco. É preciso olhar com atenção o contexto em que vive a criança. O próprio fato de ingressar na Escola traz consigo vários desafios de adaptação como, por exemplo, sair de um ambiente familiar para outro ambiente mais amplo e desconhecido. Tanto o aluno como seus pais estão à procura de uma abertura para mudanças, mas uma certa ansiedade em relação ao novo sempre aparece.
Dentro da rotina da escola, em quais momentos aparece a mordida?
Para as crianças desta faixa etária,
1.compartilhar ainda é difícil, já que o outro não é percebido como diferente delas próprias. O outro só existe em função do seu desejo. Na hora da disputa por algum objeto ou pela companhia de alguém, aparece o conflito seguido da sensação de perda. O desconforto deste sentimento é algo que ainda não pode ser compreendido e, na ânsia de livrar-se dessa situação, agem rapidamente usando seu corpo. O corpo é aquilo que lhes é mais conhecido, sobre o que têm algum controle e a boca, o foco de sua expressão. Num instante, acontece uma mordida.
2.Mais raramente, pode ocorrer de alguma criança ficar muito cansada ou com sono e, também diante deste desconforto, irritar-se e morder.
3.Há também a mordida como manifestação de contato. Quando começam a despertar para o fato de que existem outras crianças, quando vão se conhecendo melhor e criando vínculos, aparece uma mistura de união e empurrão, beijos e abraços apertados com mordida e beliscões.
4.Não podemos esquecer que muitos pais dão pequenas mordidas nos filhos como forma de carinho.
A reação do outro é também algo que estão explorando e experimentando. Muitas vezes são surpreendidos por esta reação por não terem a real dimensão da dor provocada. É comum ficarem assustados, e chorarem também, junto com o outro.
Morder é sinal de agressividade?
Na maioria dos casos não há intenção ao morder, ou seja, a criança não planejou a ação. Como já foi dito, a mordida pode ter saído de um abraço apertado ou como forma de aliviar um desconforto do momento. Porém, a mordedura é a primeira pulsão agressiva das crianças e pode estar representando uma zanga, um ciúme ou uma auto-afirmação. Como nesta faixa etária ainda não conseguem dosar sua força ou até seus impulsos, às vezes podem assustar os adultos.
Como o fato é trabalhado na Escola
Quando começam a surgir mordidas, podemos atuar individualmente e em grupo. Em termos individuais, observamos quais dificuldades as crianças estariam apresentando tanto para se relacionar, para combater, para se expressar ou até para se defender. Na hora de intervir, levamos em conta que, tanto aquele que foi mordido como o que mordeu, necessitam de nossa atenção. Seja para um carinho e um consolo, seja para que os ajudemos a enxergar outras maneiras de expressar desconforto e descontentamento. A professora ensina: “É melhor você dizer 'eu não gostei’, 'estou muito bravo' ou 'agora é a minha vez'”.
Precisamos ressaltar que o referencial do adulto é muito importante. Por causa do vínculo afetivo que o une à criança, o adulto será o modelo onde ela buscará as formas socialmente aceitáveis para negociar a posse de um objeto, a sua vez de brincar, como expressar sentimentos e desejos.
Em grupo, podemos verificar qual momento social a criança está vivendo e se está bem adaptada. Conversas no Circle ou no Free time, atividades coletivas de sensibilização da boca, oportunidade para compreensão da força dos dentes como morder alimentos resistentes, são alguns dos recursos que podemos utilizar no nosso trabalho.
Também envolvidos nesta questão, temos os pais dos alunos que também precisam de acolhida. Não é fácil receber a notícia de que seu filho foi mordido, muito menos conviver com algumas marcas no seu corpo. Algumas vezes chegam a perguntar: "Quem fez isto com meu filho?" Quando isto acontecer, as professoras procurarão colocar a situação de uma forma clara, porém sem nomear, para não expor ninguém desnecessariamente. Do outro lado estão os pais da criança que mordeu. Eles poderão se constranger ou ficar aflitos com o acontecido. Para todos, nossos professores e coordenadores oferecerão apoio para ajudar a entender e a superar esta fase pela qual estão passando as crianças.
Em suma, as mordidas são manifestações que podem acontecer durante uma fase do desenvolvimento infantil. Enquanto adultos, podemos ficar atentos ao contexto, às dificuldades e intervir sempre que necessário, mostrando opções mais adequadas para a criança se expressar ou buscar o que quer.
O processo natural de desenvolvimento
Podemos entender a mordida como expressão da combatividade da criança. Combater para conseguir o que quer, usar uma força interna para conseguir algo por conta própria, faz parte do desenvolvimento infantil. Com essa compreensão, cabe ao adulto mostrar as formas socialmente aceitas como alternativa para esta manifestação. Em especial, através da linguagem verbal.
Incentivar o uso da palavra para negociações ou para expressão de sentimentos nestas ocasiões de conflitos é instrumentalizá-la, é ajudá-la a despertar para a fase seguinte no tocante ao controle das emoções e do desenvolvimento da fala. "Você ficou brava com fulano porque ele pegou seu brinquedo. Diga para ele 'Estou brincando agora, te empresto depois'". "Fulano está chateado porque você o mordeu. Vamos lá pedir desculpas e fazer um carinho nele". Tudo isto faz parte de um aprendizado de cunho social que demanda certo tempo para ser internalizado pelas crianças. Dentro desta fase, quanto menor a ansiedade que gerarmos mais tranqüilamente ela passará.
No entanto, precisamos deixar claro para aquelas que mordem que esse seu ato não é positivo, que enquanto adultos não podemos permitir que elas machuquem outras crianças. Quando for necessária uma colocação mais firme, devemos verbalizar que combater pelo que se quer não é errado, e sim a forma como foi feito.
A escolha deve passar pelo âmbito familiar - sintonia com os valores da família. Não adianta acreditar que a mesma escola que é ótima para os filhos dos outros será ótima para nossos filhos
Beleza, espaço físico e bons equipamentos não são garantia de boa educação
Por anos e anos escola e família caminharam lado a lado sem nunca cruzarem suas linhas, respeitando seus espaços privilegiados. Mas o mundo evoluiu de forma espantosa num curtíssimo espaço de tempo e tomou rumos inimagináveis. A família se transformou e adquiriu formas e contornos impensáveis cem anos atrás. Novos modos de viver apareceram, novos conhecimentos surgiram. A ordem das coisas foi alterada. E no turbilhão das mudanças, família e escola
perderam seus referenciais.
As linhas da Educação, que no passado não se cruzavam, hoje estão tão entrelaçadas que não se sabe mais o que é dever de uma e direito de outra. A escola assumiu responsabilidades que anteriormente eram da família, e exige que a família reassuma seu papel no centro da educação da criança. A família, por sua vez, não parece mais disposta a enfrentar tal responsabilidade, abrindo mão de suas prerrogativas de transmitir valores, estabelecer limites, cobrar resultados e posicionar a criança no mundo como cidadã e, principalmente, como criança.
As diferenças fundamentais que se percebem hoje na educação da criança, em relação ao que acontecia no passado são várias, mas as mais notáveis são duas: troca de papéis e falta de autoridade de pais e de professores. Estes são cobrados todo o tempo para assumir sua autoridade, mas quando ousam fazê-lo, pais e mães reagem violentamente com ameaças de punições ...aos professores!
Neste momento do ano, em que famílias se agitam de um lado para outro procurando a escola ideal para seus filhos, sejam bebês de um ano, sejam adolescentes de 15, 16 anos, cabe resgatar nossos valores e repensarmos que tipo de educação realmente queremos para nossos filhos. Esta é uma questão exclusiva da família que, se possível, deve ser formulada pelo casal. Mas a escola também deveria participar do processo e ter a coragem e ousadia de dizer, nossa escola não serve para sua família, quando for este o caso. Infelizmente, isto ainda não acontece, a criança acaba indo para uma escola bonitinha e cheia de atrativos mercadológicos, e a escola acaba aceitando crianças e adolescentes que nada têm a ver com suas premissas pedagógicas.
A escolha da escola para os filhos envolve múltiplas variáveis desejáveis, e hoje vivemos uma época em que há escolas para todos os gostos e bolsos. E é neste ponto exato que eu gostaria de me deter e propor uma reflexão junto aos pais: "que tipo de escola desejamos para nossos filhos, uma vez que existem tantas, de várias linhas e tamanhos?" Penso que se conseguirmos responder apenas a esta questão, parte do problema estará resolvido.
Considerando-se que judô, natação, ballet, capoeira, culinária, tecelagem, bordado, tricot, horta, jardinagem, brinquedoteca, parquinho, etc, não são propostas educacionais, o que deve realmente ser levado em consideração na hora da escolha?
Em primeiro lugar: se a escola professa os mesmos valores filosófico-educacionais que a família, ou seja, se a escola preza e valoriza as mesmas coisas que a família, como por exemplo o conhecimento, a cultura, a religião e a formação ética da pessoa.
Este talvez seja o aspecto mais importante a ser considerado no momento de escolher uma escola. Muitas famílias matriculam seus filhos em escolas indicadas por amigos, por familiares, ou porque simpatizaram com suas orientadoras educacionais na hora da entrevista, ou porque ficaram
encantadas com o espaço físico e as acomodações, ou porque a escola oferece uma infinidade de modalidades esportivas, sociais e culturais. Entretanto, estes não são bons critérios de escolha.
A escola deve, sempre que possível, falar a mesma linguagem da família, ou seja, estar em sintonia com os valores e princípios adotados pela família. Famílias mais rígidas, que prezam valores mais tradicionais e matriculam seus filhos em escolas mais liberais e abertas, fatalmente acabam tendo problemas no futuro com o comportamento dos filhos e gerando conflitos internos, pois chegará o momento em que os questionamentos virão, e tanto os valores da família como os da escola serão colocados em xeque. Por isso, é extremamente importante que escola e família estejam de acordo com a Proposta Educacional da Escola, que deve ser entregue aos pais no momento da primeira entrevista.
Proposta Educacional
A Proposta Educacional é um documento redigido pela escola que contém todos os princípios e ideais que a escola defende como importantes na formação do aluno. A família deve ler e compreender claramente esse documento, pois é ele que traz as balizas da educação da criança, é nele que a escola expressa a sua filosofia educacional.
O Projeto Pedagógico também é um documento que a escola distribui no início de cada ano, mas ele se propõe a relacionar para os professores como será o fazer pedagógico, ou seja, como a Proposta Educacional irá acontecer na prática, no dia-a-dia do aluno dentro da escola, por isso, não deve ser confundido com a Proposta Educacional. Nem sempre a família tem conhecimento
do Projeto Pedagógico, pois ele é um documento interno, que circula entre os membros do corpo docente e diretivo da escola e contém todo o conteúdo programático que será realizado durante o ano letivo. É no Projeto Pedagógico que aparecem conteúdos programáticos como horta, natação,
jardinagem, biblioteca, dança, culinária, teatro, etc, e não na Proposta Educacional. São documentos totalmente distintos, por isso não podem ser confundidos.
Em segundo lugar: como a escola percebe e se relaciona com a família, com os membros do corpo docente, com seus funcionários e com a comunidade local? Se hoje a escola já não é mais o espaço fechado onde se enviava os filhos para adquirirem cultura, conhecimento acadêmico e formação religiosa, e sim uma reprodução em miniatura do mundo externo, responsável pela formação do cidadão global, é preciso que se indague como a escola se relaciona com a
família, com seu corpo docente, com seus funcionários e com a sociedade.
Com todas as mudanças ocorridas na sociedade e na estrutura familiar, sabemos que hoje o papel da escola é muito mais abrangente no sentido de ouvir e de acolher a família. A maneira como se relaciona com seu corpo docente, funcionários e com a comunidade local são também aspectos que devem ser considerados, pois é nesse espaço privilegiado, onde a criança passa a maior parte de sua vida, que ela aprenderá a se relacionar socialmente e se desenvolverá como cidadão do mundo, que respeita seus pares, seus diferentes e seus semelhantes, e seu meio ambiente. Portanto, é extremamente importante que os modelos de relacionamento social sejam os melhores.
É na escola que a criança se forma como cidadã, é lá que ela compreenderá o valor da amizade, do respeito ao próximo e às suas características pessoais. É lá também que ela formará sua primeira rede de relacionamentos que, com sorte , poderá se prolongar por toda a vida.
Atualmente há escolas que se engajam muito na vida da comunidade local, nos acontecimentos do bairro, participando e contribuindo com atividades sociais de preservação do meio ambiente, com festas, bazares e outras ações sociais que beneficiam a população local. O objetivo desse envolvimento da escola com a comunidade local é não só o de desenvolver na criança e no adolescente o espírito filantrópico e o trabalho voluntário mas, principalmente, o de fazê-los perceber-se como cidadãos pertencentes a uma comunidade social que exige a participação de todos no sentido de dar e de retribuir benefícios.
Do ponto de vista da educação, estes são os pontos mais relevantes na hora da escolha de uma escola.
Como disse no início, esta é uma escolha do âmbito familiar, ou seja, não adianta acreditar que a mesma escola que é ótima para os filhos dos nossos amigos, vizinhos ou irmãos será ótima para nossos filhos. Nem mesmo a escola que foi ótima para nós um dia, talvez não seja mais para nossos filhos, porque nossos valores mudaram, nossas prioridades são outras.
Beleza, espaço físico e bons equipamentos não são garantia de boa educação. Mais importante do que tudo isso é poder confiar nas pessoas que lidam com nosso filho, é poder senti-lo feliz na hora de ir para lá, seja com que idade for e, principalmente, estarmos com a cabeça tranqüila quando ele estiver lá dentro, pois é lá que ele passará boa parte de sua infância e de sua adolescência, e nós precisamos estar certos de que lá ele receberá os mesmos ensinamentos que receberia em casa, se pudéssemos estar presentes o tempo todo.