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VAMOS FALAR SOBRE SEXO |
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Março 2010
Embora vivamos num país onde a sensualidade declarada é aceita com naturalidade até mesmo em programas infantis onde crianças imitam cantoras e apresentadoras com aprovação de seus pais, que inclusive as estimulam vestindo-as como mocinhas; onde o Carnaval libera a nudez total que é exposta pela televisão em todos os horários; onde as novelas, que são assistidas até por crianças, mostram casais em beijos e afagos eróticos; embora tanto se veja, tão pouco se sabe dizer. Ou melhor, embora tanto se permita ser visto, tão pouco se procura esclarecer.
Os pais ainda têm muita dificuldade em verbalizar para seus filhos a questão da reprodução humana, do ato sexual e do prazer sexual. Ao mesmo tempo, o erótico, o sensual, e até mesmo o vulgar lhes é apresentado com muito mais naturalidade. O preconceito foi invertido, pois o que é natural e verdadeiro, o ato em si e as consequências que ele traz, são escondidos atrás de uma máscara de erotismo e sensualidade, algumas vezes imposta. Preconceitos são sempre mal vistos. Mas por que engolimos, aceitamos e até imitamos o que a sociedade nos impõe? Não estaríamos dessa forma já aceitando um pré “conceito” de que a forma imposta é correta? Existe em tudo isso uma hipocrisia implícita! Precisamos refletir.
Contudo, divagar sobre os porquês desse comportamento, neste momento, seria fugir do objetivo proposto: ajudar a encarar como natural o assunto e encontrar estratégias que assegurem aos pais boas conversas com seus filhos.
Os pais fazem algumas perguntas: Quando conversar sobre o assunto? Como iniciar a conversa? Que idade deve ter a criança? É para responder toda a verdade? É a mãe ou o pai quem deve falar? Mãe fala para menina e pai para menino? Por que não podemos atribuir essa conversa somente à escola? Podemos falar tudo de uma vez e acabar com o assunto de vez? E se meu filho nunca me perguntar? A conversa deve ser científica? A conversa pode envolver romance? Fala-se do prazer? ... etc e tal.
Pois bem, vamos examinar essas perguntas. Antes de qualquer coisa, vamos procurar encarar esse assunto como uma verdade da natureza humana e atribuir-lhes os nossos valores pessoais, ou seja, nossas próprias verdades. Dessa forma, as respostas são diferentes em cada casa, porém devem ser coerentes e honestas.
É importante que os adultos tenham certeza de que as crianças podem, sim, enfrentar quaisquer assuntos que lhes seja revelado com naturalidade, tato e delicadeza. E que a verdade liberta, pois muitas vezes a criança está com a cabeça cheia de exageros e culpas; imaginou ou ouviu informações errôneas, mas não sente abertura com a família para questionar.
Falar sempre a verdade sobre tudo é a base para um relacionamento livre de preconceitos, aberto e amigo. Quando a criança desperta de alguma maneira para uma questão a respeito de sexualidade os pais devem ser tão ou mais verdadeiros quanto nos outros assuntos.
Refletir um pouco antes de responder é sempre uma atitude sábia. Avalie bem a pergunta que lhe foi feita para não se atropelar e acabar respondendo o que ainda não lhe foi perguntado. Uma pergunta simples pede uma resposta simples. Um exemplo:
- Mamãe, como eu saí da sua barriga?
A mãe deve responder a verdade. Ou de parto natural ou de uma cesariana.
- Você nasceu de parto normal.
Talvez a criança se satisfaça com esta resposta, talvez faça a segunda pergunta:
- O que é parto normal?
A mãe deve explicar o que é.
- Parto normal é quando a vagina (use o nome científico, mas explique do que está falando) da mulher se dilata, ou alarga, para o bebê sair.
Geralmente a criança se satisfaz com uma resposta direta e clara, e não continua o assunto longamente. Com o passar do tempo outros questionamentos surgirão. Portanto os pais devem respeitar esse tempo e não dar uma AULA de REPRODUÇÃO HUMANA, na primeira oportunidade.
É importante também não fazer comentários com outros adultos sobre a conversa acontecida, na frente da criança, como se ela estivesse se tornando safadinha porque se interessou por sexo. Nada disso. Para a criança, o assunto não tem esse teor. Trata-se da curiosidade em conhecer o mundo e as regras que regem seu funcionamento.
Não existe uma idade certa ou errada. A criança, de alguma forma, teve sua curiosidade despertada. E uma pergunta sem resposta desperta a criança para uma curiosidade muito maior. “Por que não querem me responder? O que tem de errado aqui?”. E vamos enfrentar essas perguntas. Por que não responder? O que tem de errado?
A criança quer uma resposta imediata, logo deve responder a pessoa a quem ela perguntou, ou o pai ou a mãe. Também não existe uma regra que dite que a mãe conta para menina e o pai, para menino. Fala quem foi perguntado. Não precisa florear, nem falar de abelhas, peixes ou outras formas de reprodução. Responda o que lhe foi perguntado. Contudo, se a pergunta surgiu num ambiente que você considera impróprio, diga ao seu filho: “Vou te responder esta pergunta quando chegarmos em casa”. E faça-o. Mas não deixe de colocar então, o porquê de ter adiado a resposta. Algo como: “Alguns adultos não gostam de conversar sobre sexo, então eu achei melhor te responder agora, em casa”.
Com o passar do tempo, novas perguntas surgirão e a cada conversa, a cada resposta verdadeira, surge um vínculo de confiança. Saber que esse vínculo vai dar oportunidade para um bom relacionamento, quando chegar a hora de seu filho viver suas primeiras experiências, é importante. Muitas vezes, são essas conversas que futuramente assegurarão a tomada de atitudes corretas por seu filho.
Se o tempo for passando, seu filho crescendo e nada lhe for perguntado, crie uma oportunidade e faça você a primeira pergunta. Talvez ele esteja envergonhado ou não se sinta à vontade com relação à atitude dos pais. Ou talvez ainda, ele já tenha recebido informações de outras fontes que satisfizeram sua curiosidade. Mas como saber? Oportunize conversas, desperte-o para novas perguntas se considerar que chegou a hora. E, então, verifique o que ele já sabe e deixe que ele fale, que pergunte sem despejar toda sua ansiedade sobre ele. Jamais ria da ignorância dele. A criança não tolera ironia. Rompe-se toda a possibilidade de confiança e resgatar a confiança é um processo longo e muitas vezes doloroso.
Com o passar do tempo, depois que o vínculo de confiança estiver estabelecido, você deve falar de outras coisas além das biológicas. Fale do prazer e do carinho, fale de amor, das consequências, fale do respeito, dos seus valores morais e religiosos... Mas jamais esqueça que a vida de seu filho não é sua. Você pode ensinar muito a ele, mas não espere que ele repita a sua vida. Garanta-lhe seu apoio sempre e permita que ele trace sua própria trajetória.
A escola pode completar o trabalho dos pais. Mas é a família que deve dar formação dos valores éticos, morais e religiosos. A partir daí, os pais precisam certificar-se de que a escola escolhida preza e valoriza as mesmas coisas que eles, e vice-versa. Dessa maneira, família e escola se complementam e fica assegurada a educação da criança. |
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RETORNO ÀS AULAS |
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Como retornar a rotina com tranquilidade
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Fevereiro 2010
As férias são, sem dúvida alguma, períodos de nossa vida em que nos permitimos quebrar nossas rotinas e para alguns também é um período em que "tudo vale", pois relaxam as regras. Fevereiro está chegando e traz consigo, além do Carnaval, dias de um vale tudo coletivo, o retorno às aulas.
Para nós adultos retornar à rotina é árduo. Nosso corpo acostumou-se a mais horas de sono, embora de baterias carregadas, estamos mais lentos e até preguiçosos. Perdemos o ritmo da obrigatoriedade. Para as crianças pequenas esta sensação é maior, pois elas são naturalmente intensas, inteiras. A criança nasce sem a compreensão desta divisão de papéis e tempos, desta multiplicidade de funções e obrigações. Ela é simplesmente criança em toda sua inteireza. Logo, sair da sua intensidade no seio familiar e retornar a escola é para ela, criança, tantas vezes, incompreensível. Por que sair de uma situação confortável para outra de tão grande desafio emocional? O ato de separar-se dos pais é o grande vilão desta história. Por este motivo os pais precisam ter certeza de suas escolhas e decisões, pois a criança confia cegamente neles. É esta confiança que vai gerar a tranquilidade do enfrentamento da situação que se avizinha. Certificar-se da amorosidade dos adultos que permanecem com os pequenos é tão significativo quanto certificar-se do ambiente, dos cuidados físicos e dos desafios cognitivos.
Quando é a hora de colocar o pequeno na escola? Quando é necessário romper novamente o cordão umbilical e encarar a vida fora do ninho? Atualmente, com as mulheres integradas no mercado de trabalho, esta necessidade é social. A mulher precisa, ela quer trabalhar fora, pois já não se satisfaz em realizar somente as funções domésticas e maternais. Quando tem um bebê, seus sentimentos tornam-se ambíguos. Ela sofre porque sente que o filho precisa dela e simultaneamente ela quer retomar sua carreira. Ela gosta de estar com a criança, mas não exclusivamente.
Há algum tempo, assisti a um curta metragem que me impressionou e aqui relato a história para ilustrar nossa reflexão:
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Na primeira cena aparecia uma mãe pobre, em sua casa simples, cantarolando contente uma canção infantil enquanto arrumava a mochila de seu bebê e brincava com ele. Os dois trocavam olhares e sorrisos. Ela tomava o bebê no colo, a mochila e sua bolsa.
Caminhava pelas ruas até o metrô chegando à creche, onde entregava a criança à professora e partia com uma lágrima a lamber-lhe a face.
Na cena seguinte aparecia uma mãe de classe alta, em seu apartamento sofisticado, cantarolando a mesma canção e brincando com seu bebê enquanto se arrumava para sair para trabalhar. Os dois trocavam olhares e sorrisos. De repente tocava a campainha e a segunda mãe ia abrir a porta. Era a primeira mãe que chegava para trabalhar. A segunda mãe saia e pegava seu carro rumo ao trabalho, com uma lágrima a lamber-lhe a face.
Na terceira e última cena a primeira mãe aparecia cuidando do bebê da segunda mãe. Ela estava sentada ao lado do berço, fazendo-o adormecer, cantarolando a mesma canção, com o olhar parado no infinito carinhava suavemente a criança que também olhava o infinito.
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Difícil?! Confiança e vínculos afetivos são
imprescindíveis para a realização de um bom processo de crescimento e
desenvolvimento educacional. Saibamos que a
mão que acalenta o berço tem coração. Trabalhar juntos é a melhor sugestão.
Quando família e a escola se abrem, se
entregam em suas verdades, necessidades e expectativas a criança segue sua
trajetória feliz e segura.
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QUE NATAL É ESTE? |
O que queremos ensinar aos nossos filhos?
Por Regima Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Dezembro 2009
Quando criança, lá pelos meus nove anos de idade, li A Menina dos Fósforos, um dos Contos de Andersen. Trata-se da triste história de uma menina pobre que vendia fósforos e que em determinada noite de Natal, morre de frio sentada numa calçada de onde via, através de uma janela, uma família rica celebrando fartamente a data. Esta história marcou minha infância e minha relação com o mês de dezembro. A melancolia do final do ano somada a constatação de que muitos não terão o peru sobre a mesa, nem presentes, nem abraços... nem fé. Porém, as comemorações na minha família acabavam aquecendo meus pensamentos e a Menina dos Fósforos ficava esquecida mais um ano até o dia de montar a árvore novamente. Assim fui crescendo e adormecendo meus conflitos internos ao som de Jingle Bells.
Nos anos de minha infância e adolescência o Natal foi vivido com todos os símbolos e rituais próprios da celebração cristã. A ingenuidade própria da idade, as luzes, cores, somadas ao calor do encontro familiar e a fantasia do Papai Noel e seus presentes eram determinantes para estabelecer o clima do momento.
Quando me tornei mãe revivi a velha história da Menina dos Fósforos. Precisei trazer à memória valores, resgatar as emoções e então decidir como seria o Natal para meus filhos. Que Natal eu queria ensinar-lhes? Meu desejo sempre foi o de passar-lhes o real significado da celebração cristã. Num mundo globalizado, onde os valores, símbolos e rituais correm o risco de deturpação pela sociedade secularizada e dominada pelo mercado, é preciso ser objetiva e forte para educar dentro dos valores pretendidos. Mas nada melhor do que repetir a dose daquilo que se acredita. Então procurei mostrar-lhes que um Natal próximo ao que vivi na minha infância. Singelo. Alegre. Fraternal.
Atualmente, como educadora, quando outros filhos além dos meus, me despertam amor e preocupação, procuro ensinar o Natal através dos sentidos. No que vêem: através de todos os símbolos expostos na cidade; no que ouvem: através das canções natalinas tão tradicionais; no olfato pelo cheiro do pinheiro, do panetone, nozes e castanhas; no paladar por todas as guloseimas que são típicas desta data; no tato por todo abraço que podem dar. O sexto sentido é o da espiritualidade. Aqui então, cabe a cada família mostrar o seu caminho. E juntos precisamos realizar práticas que comunguem a PAZ.
Afinal o Natal é a grande festa da solidariedade universal. É comemorado até mesmo em lugares onde a população cristã é minoria. Para muitas pessoas o sentido religioso transcendeu. Celebram o encontro dos povos com toda a diversidade que lhes é peculiar.
Desejo uma festa de Natal harmoniosa àqueles que pensam em comemoração. E um encontro de paz e fé àqueles que acreditam no nascimento do Menino Jesus. |
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EDUCANDO E FORMANDO PESSOAS COMPETENTES E FELIZES |
Visita às escolas de Reggio Emília
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Uma excelente infra-estrutura arquitetônica, material de primeiríssima qualidade e equipes competentes declaram à primeira vista, para qualquer visitante, que a escola difere muito daquela conhecida por nós. Tudo é bonito, mas trata-se daquela beleza verdadeira e coerente com a faixa etária que ali aprende. A escola é planejada, em todos os detalhes, para a criança. A escola não é clube recreativo, nem buffet infantil, nem espaço de shows... a escola é escola. Ali a criança é realmente autora de sua própria história e toma posse de suas possibilidades dentro daquele espaço e contexto, com o apoio total de seus professores e família. A família é presente e atuante, participa da rotina com freqüência.
Nas escolas de Reggio Emília pode-se observar que as crianças têm liberdade e foco. A elas são oferecidos bons desafios. Bom desafio é o que se situa entre o fácil e o impossível. As crianças escolhem seus projetos, buscam informações que sustentem suas pesquisas e realizam trabalhos coerentes com o universo infantil. Existem “assembléias” que são momentos em que elas questionam, discutem, avaliam seus próprios trabalhos, reconsideram suas posturas.
O sistema de ensino deu um grande passo em Reggio Emília. A partir do momento em que decide-se não sistematizar um método de trabalho, mas sim fazer com que as crianças construam espontaneamente o aprendizado, surge uma nova maneira de educar. Educar para a vida e para o hoje. Permite-se que o conhecimento seja realmente construído individualmente. Permite-se que as crianças vivam como crianças, não como o adulto no porvir. A importância desta etapa da vida do ser humano é inteira, a criança não é tratada como um pré-ser em momento algum, por isso ela não está realmente sendo “pré parada” para o futuro, para o ano seguinte. Lá, se realiza um trabalho que se completa em si mesmo, que solidifica e formata o ser de maneira total, passando por todas as formas de se expressar e agir.
Os italianos já deixaram totalmente para trás o velho molde, no qual o aluno era educado para realizar provas e para ser no futuro um bom profissional, quem sabe... Lá a educação busca formar homens e mulheres que sabem se expressar, que são capazes de tomar decisões, de arcar com responsabilidades e de serem felizes.
Olhando para o passado podemos compreender este tal velho molde ao qual ainda muitas escolas e famílias estão presas. O contexto histórico social do início do século XX, quando a era industrial valeu-se de uma importância que ultrapassou os muros das fábricas, envolveu as famílias e fez surgir a escola no formato que até hoje em muitos lugares ainda se impõe. Uma escola na qual o aluno é treinado para fazer parte de um mundo de produtores calados e conformados. Informações e conteúdos programáticos lhe são impostos, independentemente de seu interesse e aptidão, porque o funcionário ideal que ele será um dia, precisa mais do que tudo de conhecimento técnico, para atingir metas e produzir mais e mais. Esta é uma escola que disciplina rigidamente, uniformiza no sentido mais amplo da palavra, que tenta anular diferenças. Esta escola que busca calar a alma de seus aprendizes para encaixá-los num sistema de vencedores e vencidos, opressores e oprimidos.
Porém, o mundo está mudando a largos passos. Não podemos compreender que instituições de ensino permaneçam presas a moldes antigos e ultrapassados. A criatividade, a flexibilidade e os valores são as características mais valorizadas no homem atual. As escolas também estão mudando, estão buscando oferecer desafios adequados para a formação deste novo cidadão, que conhece seus direitos, respeita os alheios e participa da construção de sua história social. Cabe às famílias compreender esta evolução e encontrar escolas onde seus filhos sejam aceitos como aprendizes interessados e participativos, características que as crianças possuem naturalmente. Escolas que fomentem a curiosidade e a liberdade intelectual, e façam da vida escolar uma vida alegre e prazerosa. |
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REFERÊNCIA É TUDO! |
Reflexão sobre minha viagem à Itália
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Novembro de 2009
Costumo dizer que em educação referência (modelo) é tudo! Fui à Itália neste mês de outubro para realizar uma pesquisa nas escolas de Educação Infantil de REGGIO EMÍLIA, cuja metodologia foi considerada a melhor do mundo pela revista News Week, nos anos noventa. Hoje, porém, me vejo com a necessidade de falar de algo além da minha pesquisa, desta prometo falar numa próxima oportunidade. Agora falarei de referências.
Fotografei muito. As casas que me encantam pela arquitetura antiga; as árvores tão lindas e diferentes das nossas florestas tropicais; o outono chegando declarado derramando-se pelas ruas da cidade, tingindo-as de amarelo como o sol de todos os dias em que ali estive; comidas de sabores exóticos; as estradas tão planas e conservadas, as ruas e calçadas impecavelmente limpas; carros de tamanhos minúsculos que me faziam pensar em soluções para o nosso problema de trânsito, isto sem falar das milhares de bicicletas que circulam por todos os lados carregando pessoas de todas as idades, sexo e profissão, um meio de transporte racional; pessoas bonitas, saudáveis, elegantes; além dos galantes italianos há negros, árabes, turcos, muçulmanos, povos tão diversos, mas ao mesmo tempo tão homogêneos em sua diversidade; feiras e praças repletas.. Enfim um outro mundo que me fascinou e me fez clicar todos os registros fotográficos que as abençoadas máquinas digitais permitem à impulsividade.
Vivi algumas situações que me despertaram reflexão social. Numa delas duas mulheres negras em sua linguagem totalmente desconhecida para meus ouvidos, me exigiam que eu mostrasse minhas fotos por receio de que seus rostos fossem expostos em sites indevidos. Tudo isso, compreendi depois que descobri que todas nós falávamos o bom e útil Inglês. Depois de acalmá-las e confesso, me acalmar também, sentei-me num banco de uma praça para digerir a experiência vivida. E, sem saber quem são elas, envio-lhes meu aplauso. Foram guerreiras de seus direitos, embora vivendo num país estrangeiro, não se acuaram.
Outra situação que me gritou foi observar a conversa entre dois homens, um deles reclamava do outro por haver deixado acorrentado o seu próprio cão em frente à loja aonde adentrara para alguma compra. O senhor que cobrava estava a defender os direitos do animal do outro. Elucubrações a parte, sabemos que os exageros no relacionamento homem-animal são questionáveis, porém o que me fascinou foi a energia da conversa. O dono do cachorro ouviu respeitosamente, como quem permite ao outro o direito à indignação e ao posicionamento.
Viajei por algumas cidades no nordeste da Itália. Em todos os lugares tive a mesma percepção de que a segurança e o bem-estar estão presentes na vida de todas as pessoas da região. E, as questões mais simples, ou não, que proporcionam qualidade de vida ao ser humano, ou seja, moradia, saúde, educação, segurança e transporte são altamente qualificadas e um direito de todos. As pessoas estão acostumadas a viver com qualidade. E sentem-se no direito de cobrar quando algo está errado.
Se há grande variação de poder aquisitivo, isto não se declara... Todas as pessoas aparentam viver bem. Não vi mendigos, sequer pobres.
Mesmo assim, usufruindo daquele lugar idílico, senti saudades do nosso país tropical. E me veio à mente a primeira estrofe do poema de Gonçalves Dias, Canção do Exílio, que diz: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. E sem querer ser conformista, muito pelo contrário, registro aqui o meu grito de alerta. Vamos buscar referências de qualidade e lutar por nossos direitos. Nosso povo brasileiro, famoso pelo “jeitinho latino de ser” e pela abundante beleza das nossas mulatas, desconhece as obrigações do estado, cala calúnias, aquieta quando afrontado. Estamos acostumados à pouco. |
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CONSUMIDOR OU CONSUMIDO? |
O que comprar para o Dia da Criança
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Outubro de 2009
Que presente comprar para nossos filhos neste mês de outubro? Aquele que eles desejam? O que necessitam? O que agradaria a mim como criança? O que eu acredito interessá-los nesta idade? O brinquedo da moda? O que cabe no meu bolso?
O que nós, pais e mães, desejamos realmente dar-lhes? O que queremos que eles entendam ou aprendam ao receber o presente? Vamos deixar-nos cair na malha acirrada que a mídia cria entorno do universo infantil e comprar o mais atual, mais caro e mais bonito? E assim garantir que nosso filho fará parte do grupo de consumidores infantis do condomínio e da escola?
São tantas as questões que podem surgir antes de uma tomada de decisão. Precisamos sim, levantá-las todas. É necessário refletir, questionar a compra de um simples presente, para que de fato, o presente seja simples. E venha imbuído de amor e significado. E assim sendo, cumpra seu papel como objeto de aprendizagem e diversão.
Até mesmo na escolha de um brinquedo os pais precisam exercer o seu papel de educadores. O objetivo do brinquedo é proporcionar brincadeiras, desafios próprios de cada idade, diversão. Não deveria ter relação alguma com status ou pertencimento social. Mas educar é uma arte. A difícil arte de criar uma pessoa íntegra. Faço minhas as palavras de Carlos Fregtaman quando diz que “educar é desenvolver um sistema sensível, em harmonia com outros sistemas mais amplos que o contêm; é desenvolver um processo holístico de transformação, em sincronia com o grande processo da vida”
Inseridos que estamos numa sociedade na qual hoje a palavra cidadão é substituída cada vez mais pela palavra consumidor, temos que buscar fundo, em nossas almas, energia necessária para reagir. Iniciando por nossos hábitos individuais até atingirmos os de nossas famílias e posteriormente, quero acreditar, os da sociedade. Afinal, mesmo nós próprios, quantas vezes compramos o que não precisávamos, quantas vezes caímos na tentação, no impulso momentâneo da compra de um objeto totalmente desnecessário e chegamos em casa com a sensação estranha de termos sido enganados?... e tão vitoriosos nos sentimos quando conseguimos sair de um centro comercial abanando as mãos, livres da teia sedutora da mídia, dos vendedores, da sociedade que impõe que façamos parte do grupo que pode, que tem... e nem sempre é! Avaliar o contraponto existente entre a satisfação momentânea gerada pela adrenalina liberada no momento da compra e o bem estar duradouro pela aquisição, ou não, de algo necessário é hoje uma questão de maturidade, diria até de cidadania.
Os marketeiros e as empresas estão dedicando atenção crescente a crianças cada vez mais jovens, pois as consideram a parte mais vulnerável das classes consumidoras. O poder de sedução das crianças aliado ao sentimento de culpa dos pais por sua grande
carga horária ausente de casa é utilizado pelos canais da mídia que transformam produtos em grandes soluções psicológicas, passando a ilusão de que é preciso ter para demonstrar competência na constituição dos papeis familiares. É importante reconhecer que a responsabilidade por filhos obesos, consumidores vorazes, sexualmente precoces ou até mesmo com comportamentos violentos, não cabe somente às famílias. É preciso atribuir o peso também às empresas e agências de publicidade, que apostam no mercado infantil desenfreadamente, distorcendo valores e criando consumidores fiéis nas diversas faixas etárias.
Porém, os pais são desafiados quando ensinam aos filhos que o essencial é ser e não ter, já que estão sendo bombardeados pelo consumismo de todos os lados. Afinal as lojas de brinquedos, os parques, as cores, as luzes atraem as crianças. Os pais devem oferecer orientações o quanto antes, esclarecendo que o importante é a personalidade do indivíduo, e não aquilo que ele consome. O ser humano tem uma grande necessidade de aceitação, de pertencer a um grupo, e o ato de consumir seria uma forma de inserção social, ou seja, para vivenciar este sentimento de pertença, seria “necessário” adquirir determinado brinquedo, certas marcas de tênis e roupas e até fazer alguns passeios que são interessantes para o seu grupo. Mas como fugir disto sem sentir-se um ET? A melhor resposta que encontro neste momento é encarar de frente que ser um ET pode ser um bom caminho para toda a mudança necessária. E a partir daí acreditar e praticar o respeito a diversidade!
Volto a afirmar mais uma vez a máxima de que os pais são os grandes modelos da vida de seus filhos. Não seria diferente na questão do consumo. Logo se os pais são consumistas, a possibilidade de ter um filho também consumista é grande. Porém, se
forem econômicos, planejarem e investirem no que tem real importância para a família, conseguirão passar esses valores para seus filhos. Portanto, chegamos mais uma vez a conclusão de que o peso das relações familiares tem um grande significado na vida de
cada indivíduo e conseqüentemente nos valores de nossa sociedade.
Com o excesso de consumo a vida passa a ter o valor dos entretenimentos, que são momentâneos e sempre exigem dinheiro, enquanto os relacionamentos podem ser permanentes e exigem “pessoas”. Precisamos aprender a temperar nossa existência com diversão e ética.
A informação é o primeiro passo para lutarmos por uma mudança de valores em nossa sociedade. Somente conhecendo as possibilidades, refletindo e tomando decisões é que conseguiremos tirar nossos filhos da frente das telas, da semi-hipnose e apatia, para que tenham uma alimentação saudável, pratiquem mais esportes, leiam e brinquem mais. E para calar a idéia de que brincar é perda de tempo, ressalto aqui que cada vez mais os pesquisadores e cientistas da educação reconhecem que o desenvolvimento da inteligência humana é amplamente estimulado pela brincadeira livre.
Somos livres. Precisamos exercer nossa liberdade. Encontrar nossas verdadeiras necessidades na tentativa de viver uma vida simples que transcenda as questões materiais. |
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MEU FILHO, MEU REI ? |
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Setembro de 2009
Nos nossos dias muitas famílias demonstram dificuldade para se posicionar frente a algumas situações, aparentemente muito simples. Determinar o que a criança pode ou não fazer dentro do universo doméstico tem sido uma das dificuldades dos pais.
Antigamente essa dificuldade não existia porque os pais não se questionavam tanto a respeito da educação de seus filhos. Tinham limites claros, estreitos e rígidos. O que de certa maneira lhes facilitava a vida doméstica. Sua autoridade era imposta, e muitos filhos temiam seus pais, muito mais do que os respeitavam. Os pais gostavam de acreditar que existia respeito.
Hoje a falta de posicionamento claro dos pais torna-os excessivamente tolerantes ou indiferentes, e permissivos. Até aqui nenhuma grande preocupação. Afinal, são adultos, teoricamente podem arcar com as consequências de seus atos. Entretanto essas consequências não recaem unicamente sobre eles. E os pais tendem a se preocupar somente quando percebem que há sofrimento para os filhos. Contudo, para os filhos, esta atitude, ou a falta dela, gera comportamentos distorcidos e de difícil trato. Desobediência, birras e manhas.
À medida que vai crescendo, a criança começa a demonstrar-se intratável, seja em casa ou na escola, então está declarada a necessidade de encontrar novas maneiras de agir. Os pais desejam o que acreditam ser o melhor para seus filhos. Todavia, estão cheios de culpas, perdidos. Cobram-se mutuamente, falta-lhes autoridade e firmeza. A culpa é uma herança maldita dos tempos modernos em que os membros das famílias adotaram novos papéis e ainda estão em busca das melhores adequações. Ela gera comportamentos inseguros e sofrimento.
Quando os filhos nascem, os pais precisam decidir algumas questões simples e outras complexas. A tomada de decisão a dois exige cumplicidade acima de tudo. Errar ou acertar é consequência. Antes, é preciso união e apoio.
Muitas atitudes são tomadas naturalmente, sem reflexão, sem sofrimento. A estas poderíamos chamar de atitudes instintivas. Vamos exemplificar: o bebê que engatinha se aproxima de uma escada,imediatamente o adulto afasta-o dali; a criança pequena aproxima-se do fogão o adulto sabe o que fazer; num dia frio o adulto agasalha seu filho; ... e assim por diante.
Porém é difícil decidir quando surgem outras dúvidas: Que horas a criança deve dormir? Quanto tempo de televisão e qual a programação ideal? Com que idade deve ir para a escola? ...E tantas outras perguntas.
Nesses momentos o casal precisa compartilhar para agir em uníssono e evitar acusações futuras. Procurar orientação através de especialistas é válido. Faz-se necessário estabelecer regras. A partir de então, ser coerente e somente assim tornar-se exemplo, modelo.
Existem muitas verdades. Verdades pessoais, familiares e sociais. Cada um deve descobrir as suas próprias. Isto vem com o amadurecimento através das vivencias de cada pessoa. As verdades pessoais podem ser mutáveis. Não interferem diretamente nas verdades do outro, devem ser respeitadas. Dão riqueza aos relacionamentos. São verdades pessoais: o a religião, as crenças, o posicionamento político e social, o estilo de vida, os sonhos...
As familiares são mais difíceis de serem estabelecidas. Mais cabeças pensando, corações almejando e corpos atuando. Entretanto elas contribuem muito na formação dos valores dos filhos que ali são gerados e colocados no mundo. São verdades determinantes. Apontam caminhos.
As verdades sociais devem ser seguidas. Devem trazer-nos conforto e segurança. Quando são coerentes, nós as aceitamos, sem questionamentos, para viver bem. Outras nos incomodam e mobilizam; batem de frente com nossas verdades pessoais. Que seja bem-entendido, o que chamo de verdades sociais não são as leis. São posicionamentos que a sociedade nos impõe de maneira rotineira em nosso cotidiano. Ou seja, as diferenças culturais e socioeconômicas são verdades, a não-equiparação de salários homem e mulher dentro de uma mesma função é outra, bem como o papel da mulher na vida doméstica, e por aí vai...
O bom da vida é poder determinar, cada um, suas verdades. Entretanto, ao constituirmos família, ao nascerem nossos rebentos, precisamos checá-las todas. Elas servirão de modelo, logo precisam ser coerentes e respeitosas.
Cada pessoa e cada casa têm suas verdades. Não existem fontes impositivas. Não é preciso seguir o valor de outrem. Mas é preciso, sim, lutar pela própria verdade e pela verdade da família. Só assim damos bons exemplos aos nossos filhos. Pessoas inconstantes, que mudam ao sabor do vento, geram filhos inseguros e receosos de tomar posições.
Quando a família admite como verdade o “reinado” de um filho, coroando-o e fazendo todas as suas vontades, está permitindo que no futuro ele tenha sua coroa tragicamente amputada pelas verdades sociais. Os súditos são somente os membros da família. Lá fora a vida corre solta, as verdades são comuns a todos, não somos reis nem rainhas. Então o reizinho se vê subitamente perdido e a ele restam duas alternativas comportamentais: ou torna-se um ditador ou um acomodado, incapaz de tomar realizar sozinho. Ele sofre mais que o necessário. Torna-se socialmente inadequado.
Aqui retorno ao terceiro parágrafo deste texto, quando afirmo que os pais tendem a mudar de comportamento somente quando constatam o sofrimento dos filhos, pelo qual sentem-se responsável. Bom quando percebem este sofrimento em tempo hábil, passando a agir com segurança e determinação, sabendo e acreditando que educar é verbo permanente, ação sem limite de tempo. É preciso ser incansável! |
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VOLTA ÀS AULAS |
Como enfrentar o desafio da re-adaptação?
Por Regina Pundek
Jornal Mais Conteúdo
Agosto de 2009
Passadas as viagens, os passeios, as brincadeiras das férias, chegam novamente as aulas, trazendo consigo grandes expectativas As crianças passarão por um processo de re-adaptação neste retorno à escola. Enquanto alguns conseguem demonstrar claramente a alegria do re-encontro com os amigos e professores, para outros pesa afastar-se do aconchego doméstico e retornar à rotina escolar. Aquele “gostinho de quero mais” grita nas lágrimas e algumas vezes até nas palavras. Importante saber que todas as crianças estão em re-adaptação, tanto as que choram quanto as que calam. As formas de reagir é que variam.
Toda mudança gera ansiedade, tanto para as crianças quanto para os adultos. Então precisamos avaliar a necessidade de mudar e as escolhas que fazemos para nós e para nossos filhos.
Cada início de período letivo os pais precisam ter certeza da escola escolhida, para passar segurança aos filhos. Trazer de volta à memória os dias vividos anteriormente quando fizeram a sua opção. Talvez haja a necessidade de reavaliar a decisão antes do retorno. Por que escolhemos esta escola?
Depois disto devem refletir sobre os dias já vividos naquele local, a competência dos profissionais que educam seu filho, o que ele está aprendendo diariamente, o ambiente escolar, etc. Se os pais têm esta certeza, transferirão sua segurança para a criança que administrará o retorno sem sofrimento.
Também é importante que os pais administrem suas próprias culpas. Neste momento a criança precisa sentir suas certezas. De outra forma não compreenderá porque precisa ficar num lugar que provoca sofrimento neles. De onde vem este sofrimento? Esta culpa na maioria dos casos é gerada pela ausência dos pais na vida da criança em virtude da carga horária dedicada ao trabalho. Os pais para compensar tais circunstâncias, acabam sendo permissivos em demasia com seus filhos, e acabam valorizando a instabilidade emocional do momento em detrimento da oportunidade de superar a dificuldade e crescer. O medo de gerar traumas nos filhos impede que os pais sejam firmes.
Tendo considerado estas questões com os adultos responsáveis é importante observar o que a criança está a nos dizer durante estes dias de re adaptação. Como os pais podem auxiliar os pequenos a passarem por este processo?
Observar, avaliar e agir. Esta é a estratégia. É preciso saber qual o motivo real da angústia infantil e então trabalhá-la. Pode estar havendo DOR física (dor de barriga é bastante comum). Esta criança precisa de aconchego, abraço, conversa carinhosa e firme. Talvez um remedinho aliado a um estímulo.
Ou o choro pode ser pura MANHA. Neste caso a criança relata situações incompletas, sem conseguir encontrar um motivo coerente. Ela precisa que os pais pontuem o que está acontecendo. Leiam para ela a situação. Por ex: “Estou te compreendendo. Está difícil entrar na escola. Mas hoje é o dia, eu vou trabalhar e você vai entrar na escola porque as férias acabaram pra você e pra mim. Você vai conseguir enfrentar porque você é corajoso e tem muitos amigos. Sua professora vai cuidar de você”.Um discurso pequeno, direto e firme seguido de uma atitude positiva, colocando a criança no chão, e entregando-a a professora e dizendo: “Vai!”
É mais difícil para os pais quando o choro vem na forma de BIRRA e gritaria. Entretanto esta é a situação que gera frutos mais rapidamente quando os pais colocam o limite. Se acontece em casa, antes de sair para a escola, é mais fácil ser firme. Porém quando o pequeno joga-se no chão e esperneia na frente do portão, o adulto sente-se numa situação em que o julgamento dos outros pais dificulta sua ação, que exige firmeza e rapidez. Nestas horas o foco deve permanecer na criança e não na platéia. De qualquer forma seremos julgados enquanto pais, seja pelos desconhecidos, ou pelos familiares ou pelos próprios filhos. Há que se errar ou acertar consciente de que seus atos são coerentes com seus próprios pensamentos, não com os de outrem.
Importante: se os pais se deixam vencer pela criança, permitindo que fique em casa garantirão a repetição deste comportamento nos dias seguintes. Ela sente-se poderosa, dominando a situação doméstica. Porém ao mesmo tempo, sente-se insegura e solta, pois para ela é duro arcar com as suas decisões. E, nesta idade são os pais que devem decidir e arcar com as conseqüências. Isto sem falar o quão mais difícil torna-se para ela compreender quando “de repente” os pais encurtam os limites. Novas birras terão que ser administradas.
Não podemos deixar de mencionar também a possibilidade da criança estar simplesmente receosa do retorno, levantando na memória suas dificuldades do semestre anterior e necessitando de um apoio que lhe atribua a competência de que vai conseguir superar esta dificuldade.
O trabalho da escola nestes dias é acolher as crianças e estimular a integração à rotina. A professora que recebe a criança no portão deve aguardar que a família entregue seu filho, sem jamais arrancá-la dos braços de seus pais. Somente assim ficará claro para a criança que é o desejo de sua família que ela ali permaneça até que venham buscá-la.
Todos sabemos que a etapa mais difícil é a separação, a despedida no portão. Tanto para a criança como, principalmente, para a mãe. Esta quer ter a certeza de que a criança ficará bem, mas até gosta da manifestação de tristeza na despedida, pois assim sendo, sente-se amada. Se a criança entra correndo e não se despede com beijos, abraços e quem sabe algumas lágrimas, a mãe insegura sofre.
Logo, para facilitar para todos, as despedidas devem ser curtas. Quanto mais longas, mais sofrimento! A rapidez no portão é fundamental para minimizar o “sofrimento”. A postura dos pais no portão é determinante para a segurança do filho. Dentro da escola logo a criança se distrai, re-encontra seus amigos, professoras e se acalma.
Mas como as famílias têm a certeza de que a criança ficou bem? Esta resposta pode vir de alguns fatores. Em primeiro lugar do próprio filho, no horário de saída, observando-o e conversando com ele, sem enchê-lo de perguntas ansiosas.
A escola precisa ajudar a família, aconchegá-la nos momentos difíceis. O coração tranqüilo dos pais vai gerar muita tranqüilidade e enfrentamento para a criança.
Superar dificuldades, ultrapassar barreiras, vencer desafios, encontrar respostas é crescer. Precisamos permitir que nossos filhos enfrentem estes momentos para se tornarem capazes de viver como autores de sua própria história. |
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